Resenhas 15/09/2026

A cabeça do santo: quando o realismo mágico encontra o sertão cearense

Um jovem encontra abrigo na cabeça oca de uma estátua de Santo Antônio e descobre um dom insólito neste romance ambientado no sertão do Ceará.

Existe algo profundamente sedutor na premissa de A cabeça do santo: um jovem chamado Samuel, cumprindo a última vontade da mãe antes de morrer, caminha a pé desde Juazeiro do Norte até Candeia, uma cidade quase fantasma no interior do Ceará, em busca da avó e do pai que nunca conheceu. Ao chegar, encontra abrigo num lugar improvável, a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, separada havia décadas do resto do corpo. É ali, dentro da própria cabeça do santo, que a história ganha seu elemento fantástico: Samuel descobre que consegue escutar as preces sussurradas por mulheres desesperadas por amor.

Capa do livro
A cabeça do santo
Socorro Acioli

O que poderia ser apenas uma curiosidade narrativa vira, nas mãos de Socorro Acioli, um mecanismo para falar de fé, solidão e oportunismo. Ao lado de Francisco, o primeiro amigo que faz na cidade, Samuel passa a explorar comercialmente o próprio dom, e Candeia, antes parada no tempo, começa a se reanimar com a chegada de peregrinos vindos de todos os cantos. Sem entregar os desdobramentos da trama, vale dizer que o livro equilibra humor, crítica social e uma sensibilidade lírica rara: por trás da fábula sobre milagres e crendice, há uma reflexão sobre como a fé alheia pode ser tanto consolo quanto moeda de troca.

O cenário do sertão cearense, descrito com precisão de quem o conhece bem, funciona quase como um personagem à parte, e o romance se filia à tradição do realismo mágico latino-americano sem nunca soar como imitação. Essa filiação, aliás, não é acaso. Em 2006, Socorro Acioli foi a única brasileira selecionada para "Como contar um conto", oficina de criação e roteiro ministrada por Gabriel García Márquez na Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, em Cuba.

A seleção não seguia processo formal: eram apenas dez vagas, por convite direto do próprio escritor colombiano, e a última delas foi decidida a partir de uma sinopse de meia página que chegou às mãos de García Márquez através da coordenação do curso. Foi esse texto que deu origem à semente de A cabeça do santo. Anos depois, a história ganharia contornos definitivos como tese de doutorado em Estudos de Literatura Comparada, defendida por Acioli na Universidade Federal Fluminense, unindo pesquisa acadêmica sobre a obra do próprio García Márquez à escrita ficcional que se tornaria seu primeiro romance para o público adulto.

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza em 1975 e começou a escrever cedo: seu primeiro livro, O pipoqueiro João, foi publicado quando ela tinha apenas oito anos de idade. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará, com mestrado em Literatura Brasileira e doutorado pela UFF, construiu a carreira literária primeiro através de biografias, como a de Rachel de Queiroz, antes de migrar para a literatura infantojuvenil e, depois, para o romance adulto.

Em 2013 recebeu o Prêmio Jabuti na categoria infantil pelo livro Ela tem olhos de céu, e hoje é autora de mais de vinte títulos. A cabeça do santo se tornaria também seu maior sucesso internacional, publicado nos Estados Unidos, na Inglaterra e na França, e confirmando Acioli como uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea, especialmente na forma como ela transforma o imaginário popular nordestino em matéria literária universal.

Para quem busca uma leitura curta, mas densa, que mistura realismo mágico, crítica social sutil e um profundo respeito pela cultura do sertão, A cabeça do santo é um convite difícil de recusar.


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