Resenhas 08/10/2026

Realismo capitalista: por que é tão difícil imaginar outro mundo

Ensaio sobre como o capitalismo passou a parecer o único horizonte possível e por que essa crença alimenta resignação, burocracia e sofrimento psíquico.

Quase todo mundo já ouviu, de alguma forma, que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. A frase, atribuída tanto ao teórico Fredric Jameson quanto ao filósofo Slavoj Žižek, serve de ponto de partida para Realismo capitalista, ensaio em que Mark Fisher tenta explicar por que essa ideia deixou de ser uma provocação e passou a funcionar como senso comum.

Capa do livro
Realismo capitalista
Mark Fisher

Fisher chama de realismo capitalista a sensação difusa de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, a ponto de nem sequer conseguirmos imaginar uma alternativa coerente. Para ilustrar, recorre ao cinema: em Filhos da esperança, a arte do passado aparece reduzida a relíquia sem função, num mundo que perdeu a capacidade de pensar o futuro. O autor mostra que essa atmosfera não surge por acaso. Ela resulta de décadas de ofensiva neoliberal, que convenceu o público e a própria esquerda de que não restava outro caminho, ideia resumida no lema "não há alternativa", associado a Margaret Thatcher.

Fisher discute a "privatização do estresse", processo em que o sofrimento psíquico, sobretudo entre os jovens, passa a ser tratado como problema individual, e não como sintoma de uma organização social adoecedora. Também desmonta a promessa neoliberal de reduzir a burocracia: ela apenas mudou de forma e se espalhou por escolas, serviços públicos e empresas, num sistema de metas e auditorias que o autor chama de stalinismo de mercado. Soma-se a isso a ironia anticapitalista da cultura pop, em exemplos como Wall-E, que critica o consumo e, ao mesmo tempo, acaba reforçando o sistema que parodia.

São nove capítulos curtos, em linguagem acessível, que misturam filosofia, psicanálise, crítica cultural e observações do dia a dia de quem trabalha e estuda. O contexto é o Reino Unido do início do século XXI, o que explica boa parte dos exemplos, mas o leitor brasileiro reconhece com facilidade os mecanismos descritos, da precarização do trabalho ao esgotamento tratado como norma.

Mark Fisher nasceu na Inglaterra em 1968 e ficou conhecido tanto pelo trabalho acadêmico quanto pelo blog k-punk, onde escrevia sobre música, cinema, televisão e política. Doutor pela Universidade de Warwick, onde integrou o grupo Cybernetic Culture Research Unit, lecionou no Goldsmiths, em Londres, e fundou com Tariq Goddard as editoras Zer0 Books e Repeater Books. Escreveu ainda Ghosts of my life e The weird and the eerie. Morreu em 2017, e seu pensamento segue influente nos debates sobre cultura, trabalho e saúde mental.

Para quem quer entender por que tanta gente descreve o presente com um misto de cansaço e resignação, Realismo capitalista é uma leitura curta e incômoda, que transforma uma sensação vaga em argumento.


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