Fisher chama de realismo capitalista a sensação difusa de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, a ponto de nem sequer conseguirmos imaginar uma alternativa coerente. Para ilustrar, recorre ao cinema: em Filhos da esperança, a arte do passado aparece reduzida a relíquia sem função, num mundo que perdeu a capacidade de pensar o futuro. O autor mostra que essa atmosfera não surge por acaso. Ela resulta de décadas de ofensiva neoliberal, que convenceu o público e a própria esquerda de que não restava outro caminho, ideia resumida no lema "não há alternativa", associado a Margaret Thatcher.
Fisher discute a "privatização do estresse", processo em que o sofrimento psíquico, sobretudo entre os jovens, passa a ser tratado como problema individual, e não como sintoma de uma organização social adoecedora. Também desmonta a promessa neoliberal de reduzir a burocracia: ela apenas mudou de forma e se espalhou por escolas, serviços públicos e empresas, num sistema de metas e auditorias que o autor chama de stalinismo de mercado. Soma-se a isso a ironia anticapitalista da cultura pop, em exemplos como Wall-E, que critica o consumo e, ao mesmo tempo, acaba reforçando o sistema que parodia.
São nove capítulos curtos, em linguagem acessível, que misturam filosofia, psicanálise, crítica cultural e observações do dia a dia de quem trabalha e estuda. O contexto é o Reino Unido do início do século XXI, o que explica boa parte dos exemplos, mas o leitor brasileiro reconhece com facilidade os mecanismos descritos, da precarização do trabalho ao esgotamento tratado como norma.
Mark Fisher nasceu na Inglaterra em 1968 e ficou conhecido tanto pelo trabalho acadêmico quanto pelo blog k-punk, onde escrevia sobre música, cinema, televisão e política. Doutor pela Universidade de Warwick, onde integrou o grupo Cybernetic Culture Research Unit, lecionou no Goldsmiths, em Londres, e fundou com Tariq Goddard as editoras Zer0 Books e Repeater Books. Escreveu ainda Ghosts of my life e The weird and the eerie. Morreu em 2017, e seu pensamento segue influente nos debates sobre cultura, trabalho e saúde mental.
Para quem quer entender por que tanta gente descreve o presente com um misto de cansaço e resignação, Realismo capitalista é uma leitura curta e incômoda, que transforma uma sensação vaga em argumento.